domingo, 7 de janeiro de 2018

ME ESQUEÇA





As lágrimas desciam pelo rosto misturadas à chuva. Clara conhecia bem o local. Quando era feliz – sim, a vida lhe fizera feliz em algumas ocasiões – ela subira várias vezes até o alto, iluminada pelo sol ou pelas estrelas, de mãos dadas com o seu amor. Fora tão feliz naquele lugar que achou justo ser ali o ponto final de tudo. E, quando seu corpo fosse levado pelas ondas, Clara flutuaria nelas por algum tempo lembrando dos doces momentos que passara. E depois... bem, que viesse a escuridão eterna.

O que importava agora?

Clara levou algum tempo para chegar até o alto e quando conseguiu o dia já tinha amanhecido, embora cinzento. Mas seu destino estava logo ali adiante, onde o morro de forma abrupta terminava. O temporal havia diminuído um pouco. Bastava caminhar até o chão subitamente desaparecer. Então o sofrimento que despedaçava seu coração finalmente teria um fim.

Ela titubeou. Alguns segundos de hesitação debaixo da chuva fizeram com que Clara piscasse e se perguntasse se era aquilo mesmo que queria. Planejara aquele momento por semanas. A roupa, o cabelo, o horário. Só não contara com a tempestade, mas, no final das contas, não era problema. Daria apenas mais dramaticidade para o seu ato. Nos instantes que ficou ali próximo ao seu último salto, imaginou, com alguma perversidade, o lamento dos parentes, amigos e conhecidos.

O que ele diria? Ah, esperava que ele ficasse com o coração tão dilacerado quanto o dela e levasse para o resto da vida a culpa pela sua morte.

Faltava pouco agora, disse Clara para si mesma, respirando fundo. Fechou os olhos e abriu os braços, absorvendo toda a chuva. As mãos ardiam, os joelhos estavam esfolados. O vestido comprado para aquela ocasião estava sujo e com lama na barra.

— Adeus – sussurrou ela desejando ardentemente que sua voz chegasse até os pensamentos dele e que, depois daquele dia, o cretino nunca mais tivesse qualquer tipo de paz.

Clara deu um passo à frente, decidida, agora de olhos abertos. Queria se ver caindo no mar, espreitar as ondas vindo ao seu encontro, saber o exato momento em que o seu corpo machucado afundaria na água. Talvez fosse rápido. Ela queria que fosse rápido. Não sabia nadar e se ainda tinha o direito de pedir alguma coisa aos céus era que sofresse menos do que estava sofrendo naquele momento.

Ela deu mais um passo para frente e se equilibrou perigosamente na beira do penhasco. Os braços ainda estavam abertos como se fosse alçar voo. Lá embaixo as ondas batiam mais fortes nas pedras. A tempestade aumentara de um segundo para outro.

— Ninguém se importou com meu sofrimento – murmurou ela com um soluço. — Pouco me importa todos vocês agora.

Clara se precipitou para frente no exato momento que alguém lhe agarrou com força pela cintura. Ela soltou um grito e ouviu outro também, mais forte, ao mesmo tempo que caía rolando pelo chão. As pernas ficaram balançando soltas no ar para o lado de fora do morro e Clara quase não conseguia respirar. Um homem estava atravessado sobre seu corpo, impedindo-a de se mexer, deliberadamente.

 Era inacreditável. A chuva castigava seu rosto. As costas doíam pela queda. Uma névoa cobriu o alto do morro e Clara quase não conseguia distinguir quem a salvara da morte.

— Você está maluca?

A voz dele saiu em um sussurro assustado, mas Clara não pôde responder por estar mais apavorada ainda. Lentamente e com cuidado, o homem saiu de cima dela e ficou ao seu lado, ajoelhado, observando-a. O vento revolvia os cabelos dele enquanto a encarava, pasmo.

— Acho que estraguei os seus planos.

Clara pôs a mão no rosto e começou a chorar. De onde ele surgira? Quem era aquele cara que dera fim ao seu longo planejamento? Graças a ele ainda estava viva. Viva e sofrendo. Viva, sofrendo e machucada, tanto fisicamente como psicologicamente. Clara se sentia a mulher mais azarada do mundo.

— Espero que você esteja chorando de agradecimento.

Ela continuou chorando. A névoa ia e vinha e os dois estavam ensopados.

— Vamos sair daqui antes que a gente pegue uma pneumonia.
— Não me importo – Clara sussurrou aos prantos.
— Você não se importa com o quê?
— Vá embora você – ela cobriu o rosto e soluçou mais. — Me deixe sozinha.
— Não – o homem balançou a cabeça e os cabelos loiros respingaram água para todos os lados. — Vou levar você daqui.

Ele ficou em pé e estendeu a mão para Clara. Furiosa, ela olhou para o outro lado, acintosamente.

— Já disse que vou ficar.

A névoa aumentou bem como a ventania. O homem não esperou por mais nenhum lamento de Clara. Sem fazer muita força, ele a pôs de pé, apoiando-a pelas costas. Clara deu um gritinho assustado. Ele não estava sendo bruto, mas toda a sua determinação a surpreendia.

— Você está machucada – constatou ele reparando nos arranhões de Clara. — Que mal o mundo lhe fez para você vir até aqui tentar fazer uma besteira destas?

Clara não se sentia em condições de responder. Aliás, se sentia ridícula também. Pela primeira vez, em semanas, todas as resoluções em pôr fim a sua vida estavam agora estremecidas. Olhou para cima e conseguiu encarar o seu salvador. Não queria responder. Tudo aquilo já era um constrangimento sem fim.

— Talvez um dia eu conte a você – respondeu Clara com a voz tremendo, sabendo que aquilo nunca iria acontecer.
— Tudo bem, fique à vontade. Me diga seu nome pelo menos.

Ela não respondeu. Assim que pudesse iria desaparecer daquele lugar para sempre. Esperava também nunca mais ver o desconhecido que a conduzia devagar morro abaixo, segurando-a com firmeza para que não resvalasse e saísse rolando pelas pedras.

— Meu nome é Eduardo. Certo, eu respeito que você não queira se identificar.

Clara optou pelo silêncio mais uma vez. Durante a descida, Eduardo falou sozinho. Comentou sobre o tempo ruim, as ondas violentas e perguntou se os machucados lhe doíam muito. Clara se acostumou a ficar calada, apenas admirando a voz musical dele, a conversa leve de quem era de bem com a vida, o sorriso fácil mesmo no meio daquela confusão. Teve vontade de lhe contar a verdade, que chegara de madrugada em meio ao temporal e deixara o carro em uma ruazinha próxima. Não havia trazido bagagem, pois para onde pretendia ir não precisaria disso. Mas achou melhor não dizer nada. Para quê? Provavelmente ele, em uma roda de amigos, diria que salvara uma doida de se atirar do morro, o nome dela era Clara e havia tentado se matar por ter levado um pé na bunda do noivo. Não. Era demais para quem já andava com o amor próprio tão abalado.

Quando eles chegaram ao pé do morro, Eduardo propôs:

— Eu moro aqui perto. Você precisa se secar, tomar um chá quente. Descansar.
— Eu… eu preciso ir.
— Para onde? – Eduardo parecia preocupado. — Se eu deixar você aqui, quem garante que não voltará para terminar o que tinha começado?

A chuva havia amainado e de repente aquela ideia do suicídio lhe pareceu a maior idiotice do mundo.

— Não vou mais fazer isto – garantiu ela olhando firme nos olhos negros dele e percebendo toda sua enorme desconfiança. — Eu juro.

“Mas... se eu for embora... sei que não te verei nunca mais.”

— Não confio em você. Afinal, mal nos conhecemos, não é mesmo? – ele sorriu outra vez e Clara se deu conta que seu coração acelerava. — Você sequer me diz seu nome!

Ela sorriu levemente, envergonhada. Era bom estar junto a ele, aconchegada nos seus braços. Era bom também se sentir viva quando por algum tempo se sentiu tão morta.

— Ah, você está aí.

A voz aguda e um pouco irritada de uma mulher quebrou o clima de quase encantamento que Clara estava começando a experimentar. Uma moça mais jovem que Clara e portando uma sombrinha amarela enorme encarava os dois querendo explicações. Seu olhar furioso encarava o casal.

Eduardo demonstrou não se abalar pela presença dela.

— Bom dia, amor – respondeu ele sem soltar Clara. — Carol, esta é a… Bem, esta moça estava correndo perigo no alto do morro. E eu... eu a salvei.

A expressão da moça suavizou um pouco, mas mesmo assim Clara não escapou do olhar analítico dela. A jovem era linda, com longos cabelos loiros caindo cacheados pelas costas. O contraste com a aparência de Clara era gritante e sem querer, ela estremeceu. Eduardo percebeu e achou que fosse frio.

— Vamos levá-la para casa. Ela está com frio.

Os olhos da outra se estreitaram.

— Você nem sabe quem ela é.

Clara se sentiu mal com aquela discussão. Nossa. A única coisa que queria há quinze minutos atrás era se matar. Agora o que mais desejava no mundo era estar a quilômetros de distância. A vergonha era grande, mas a pressão das mãos fortes de Eduardo nas suas costas era maior. A verdade é que não queria se soltar dele. Porém, não podia ficar mais ali também.

— Carol, pare com isto. A moça está passando por dificuldades.

A muito custo, Clara se desprendeu de Eduardo. Deu dois passos para o lado e quando tentou falar, a voz ainda saiu tremida.

— Obrigada... obrigada por tudo. Eu realmente preciso ir embora.

Carol a olhou, aliviada. Depois tornou a encarar Eduardo.

— Ela está bem. Você está legal, não é mesmo, moça?

Clara balançou a cabeça, fazendo que sim. A chuva parara finalmente e ela sabia que o carro estava a apenas dois quarteirões de distância. Bastava apenas caminhar até lá e desaparecer daquele lugar para não voltar nunca mais. Quando chegasse em casa, já seca e talvez com algum resfriado, a primeira coisa que iria fazer era agendar um horário com um especialista. E nunca mais falar sobre o seu quase suicídio com ninguém.

Eduardo voltou seus olhos para Clara, mas quando iria falar alguma coisa, soltou um espirro. De cara amarrada, Carol se aproximou dele, ralhando:

— Vamos para casa – ela pôs a mão sobre o braço dele. — Você vai pegar um gripão. Venha, você precisa de um banho quente e de um chá queimando.

       — Espere – Eduardo se virou para Clara que continuava no mesmo lugar observando o casal. — Você também está molhada. Olhe suas mãos, elas estão machucadas! Vamos até nossa casa pelo menos para tirar este barro do seu corpo.

            Carol suspirou, aborrecida.

            — Edu, para quê insistir? Ela quer voltar para casa. Não é isto que você quer?

            Clara não respondeu. Deu meia volta, segurando a barra do vestido para não arrastar no chão. Ele já estava sujo o suficiente. Sentindo o olhar quente de Eduardo nas suas costas, Clara seguiu pela rua deserta, dobrou a primeira esquina e caminhou lentamente para onde havia deixado seu carro, abalada com seu comportamento e sua fraqueza. Envergonhada, jurou para si mesma que nunca contaria sobre aquilo com ninguém. E mesmo que seu coração batesse mais quando lembrava dos olhos doces de Eduardo, pediu aos céus para que nunca mais seus caminhos se cruzassem outra vez.



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

TSUNAMI




Sinopse de Tsunami, romance em revisão da autora Patrícia da Fonseca.








Tahire chegou ao alto da Pedra do Mar à luz dos últimos raios de sol. Em Cidade de Baixo reinava o caos. As fortes ondas do mar de Padora cobriam a areia e as pequenas casas na orla já não conseguiam mais resistir. Com os braços ao lado do corpo, angustiada, Tahire respirou fundo diversas vezes para manter o auto controle. A culpa era sua. A Profecia estava sendo cumprida. Se houvesse seguido as determinações dos deuses, nada daquilo estaria acontecendo.

Os ventos haviam destruído boa parte das casas de Padora de Cima. Kara, a irmã mais nova, juntamente com os irmãozinhos gêmeos, havia desaparecido. O pai, sacerdote Ulysse, havia se oferecido em sacrifício quando soube da recusa da primogênita Tahire em abrir mão do seu amor para salvar a ilha. Len, a mãe, morrera pouco depois devastada pela tristeza.

Agora só restava ela, Tahire. A traidora.

Lágrimas vieram aos seus olhos, mas Tahire sequer se deu ao trabalho de enxugá-las. O vento fez isto por ela. A jovem sabia o motivo de as condições climáticas terem se modificado tão repentinamente. Além de não ter obedecido aos deuses, Tahire trazia dentro de si o fruto do seu amor por Erich.

As ondas avançavam cada vez mais e o coração de Tahire apertou. Desde a separação ela não vira mais Erich. Com o fim do relacionamento o rapaz descera as pedras que levavam à Cidade de Baixo e nunca mais retornara. Talvez tivesse voltado para os braços da bela Yáskara.

Tahire manteve o equilíbrio enquanto lutava contra a ventania e desviava dos obstáculos encontrados pelo caminho, restos das edificações de Padora de Cima. Precisava falar com Erich, ansiava em saber se ele estava bem, com saúde, em paz.


Vivo.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O ÚLTIMO ACORDE

                Bom dia, leitorinhos! Este é o primeiro capítulo de uma história que pode, um dia, se transformar em um romance. Espero que curtam! Estejam todos convidados a darem sua opinião. Vou adorar!




Não havia ninguém no salão do hotel quando Elisa chegou. O lugar era sofisticado, mas aconchegante e ela se sentiu um pouco melhor. De olhos fechados, respirou fundo. Em meio a sua dor, estar isolada do restante do mundo trazia um pouco de paz ao seu coração tão devastado.
                Elisa abriu os olhos outra vez. No fundo do salão, de tons azuis, havia um piano de cauda. Na noite anterior, por conta da festa de casamento de Guilherme, ela escutara os doces acordes do piano que flutuaram em ondas até seus ouvidos. Mesmo trancada no quarto, Elisa pôde ouvir os sons das vozes animadas e felizes, os risos, a música e, por fim, o som inconfundível do piano. O dia mais feliz da vida de algumas pessoas tinha sido o pior dia da vida de Elisa.
                Com passos um tanto incertos, Elisa encaminhou-se até o piano. Já o tocara algumas vezes, inclusive para Guilherme, em noites mágicas passadas. Agora, que nada mais restava, Elisa decidiu tocar a última música. E depois, então, partiria para sempre.
                Ela sentou no banquinho e respirou fundo de novo. A música que escolheu era de sua própria autoria. Tinha composto em uma noite de verão, no tempo em que Guilherme lhe jurara amor eterno. Ainda que tivesse tocado a mesma música várias vezes para ele, Guilherme nunca se interessara em perguntar quem era o autor da composição. Talvez o amor dele por Elisa já estivesse fraquejando e ele não fizesse questão de saber. Ou pior ainda: era provável que nem tivesse escutado nada, a mente já voltada para seus outros interesses.
                “Como fui boba”, murmurou Elisa para si mesma quando iniciou os primeiros acordes. “Ele nunca me amou de verdade. Eu, a filha da camareira.”. A música logo envolveu o ambiente com sua doçura e força. Elisa se isolou do mundo como desejava e de olhos fechados e lágrimas escorrendo pelo rosto, a jovem deixou-se levar pela música, ansiando esquecer um pouco da dor e da sua própria vida.
                Após algum tempo – Elisa não saberia dizer quanto – um movimento no ar desviou sua atenção. A jovem olhou rapidamente para o lado e percebeu um vulto nas sombras. Imediatamente ela parou de tocar e ficou em pé, num salto. Não imaginava que alguém estaria lhe observando, logo em um momento que considerava tão privado.
                Elisa fez menção de fugir, mas o vestido comprido e esvoaçante prendeu no pé do banquinho.
                — Por favor, moça – a voz de um homem surgiu no meio da penumbra do salão – Fique. Não quis lhe assustar.
                Mas, além de assustada, Elisa também se sentia envergonhada. As lágrimas banhavam seu rosto e ela sabia que sua expressão era marcada pela dor. Mal podia ver o rosto dele.
                O homem aproximou-se um pouco mais, com a palma da mão estendida, como se quisesse impedi-la de sair dali. Ele era alto, jovem e com os cabelos levemente compridos, alcançando os ombros. Elisa nunca o havia visto na vida e ela supôs que fosse algum hóspede do hotel.
                Ambos ficaram se encarando por alguns instantes, sem dizer nada. Elisa tentou conter o choro, mas um soluço escapou-lhe da garganta. Envergonhada, ela deu um passo para trás.
                — Parabéns – elogiou ele com um sorriso sincero no rosto moreno. — Peço desculpas por interromper seu concerto. Estava lindo.
                Por algum motivo o coração de Elisa bateu mais forte enquanto fitava os olhos muito negros dele. Quis dizer alguma coisa, porém a voz lhe faltou.
                Quem seria ele? Perguntou Elisa a si mesma, em uma mistura de sensações e emoções. Nunca o vira circulando pelo hotel. Talvez fosse um dos convidados do casamento, até mesmo um amigo de Guilherme.
                Elisa recuou um passo, enxugando as lágrimas com o dorso das mãos. Não podia ficar ali. Todo o encanto da música e do momento haviam se desvanecido pelo lindo rapaz que não parava de fitá-la.
                — Posso ajudar você? – perguntou ele, gentil. — Quer um copo d’água ou...

                Ela deu meia volta e saiu correndo, levantando o bonito vestido para não pisar na barra. Não olhou mais para trás. Quase sem poder enxergar devido às lágrimas, Elisa atravessou o salão e saiu pelo enorme janelão que dava para os belos jardins do hotel, perdendo-se em meio à noite estrelada.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A MULHER DE CABELOS VERMELHOS


Bom dia, leitorinhos! Este é o primeiro capítulo de uma história que pode, um dia, se transformar em um romance. Espero que curtam! Estejam todos convidados a darem sua opinião. Vou adorar!

Ele chegou à cidade ao entardecer. Parou o carro em uma rua sem movimento e de longe enxergou a igreja, a praça e algumas pessoas passando. Havia algumas lojas abertas e a vontade de comprar cigarros aumentou. Precisava fumar antes de seguir viagem.
Marcelo entrou em uma cafeteria bem arrumada onde a dona, uma mulher acima do peso e com lábios vermelhos, parecia o aguardar detrás do balcão. Teve a impressão que ela soltou os cabelos loiros pintados assim que ele empurrou a porta e entrou no lugar.
— Ora, ora... temos visita na cidade – anunciou ela com um sorriso amistoso. E convidativo.
— Boa tarde – cumprimentou Marcelo sem muita vontade de prolongar a conversa. — Preciso de cigarros.
A mulher sorriu. Colocou um maço de cigarros sobre o balcão.
— Não tenho muitas marcas disponíveis aqui, mas meus clientes preferem este.
Marcelo deu de ombros.
— Tudo bem. É o que eu procuro.
Depois de um tempo em silêncio, enquanto Marcelo procurava o dinheiro para pagar, ela perguntou, curiosa:
— Para onde você está indo? Sei que não é da minha conta, mas...
— Santo Antônio – respondeu ele catando algumas moedas no bolso das calças. Quando tornou a olhar para a mulher reparou que ela estava pálida. —  Santo Antônio – repetiu como se isso fosse ajudar a desmanchar a cara de espanto dela. — Algum problema?
Ela tossiu, nervosamente.
— Não, não. Está tudo bem.
Mas não estava. Marcelo percebeu que as mãos da dona da cafeteria tremiam quando ela mexeu nos cabelos mal disfarçando a tensão.
— Qual é seu nome?
— O meu? Nádia.
Marcelo se aproximou mais do balcão e ensaiou o sorriso que usava quando queria conquistar alguma mulher. — Por que não me conta o que a deixou tão preocupada?
Talvez pelo sorriso ou simplesmente pelo tom de voz rouco de Marcelo, Nádia soltou um pouco o ar. Deu uma risadinha sem graça. Estava sem jeito.
— Santo Antônio. Bem, este lugar é um pouco diferente, se é que você não sabe ainda.
Ele sabia. Contudo, precisava saber mais. Bem mais.
— Sei muito pouco sobre Santo Antônio. Você acha que serei bem recebido por lá?
Os olhos de ambos se encontraram e Nádia em seguida os baixou, olhando para suas próprias mãos pálidas.
— Talvez. Se você for um deles.







Marcelo sentiu o coração acelerar. Talvez estivesse no caminho certo. Finalmente.
— Um deles?
— Eles costumam aparecer à noite – a voz de Nádia tremeu. — Alguns aparecem ao entardecer. Como você.
— Quem são... “eles”?
— Espere aqui.
Nádia deu-lhe as costas e se dirigiu para os fundos da cafeteria. Voltou um minuto depois com uma réstia de alho.
— Tome – disse ela com a respiração entrecortada. — Você vai precisar.
Marcelo esticou a mão e segurou o alho. Foi então que percebeu que no teto do estabelecimento havia réstias penduradas por toda parte. Sinistro.
— Creio que isto – ele apontou para cima – não faça parte da decoração.
— Nenhum pouco – garantiu Nádia, a voz tensa. — Você não é nenhum deles – ela ficou nitidamente mais aliviada. —  Não se desgrude dela – e apontou para a réstia.
Marcelo levou a mão sobre a camisa e apertou o crucifixo de prata que trazia por debaixo.
— Obrigado, Nádia.
Ele se virou para ir embora, apertando firme a réstia de alho nas mãos. Talvez fosse interessante comprar mais algumas em um armazém que achara ter visto duas lojas acima. Antes de ir embora escutou a voz assustada de Nádia:

— O nome dela é Pandora e seus cabelos são vermelhos. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

MEU CHEFE É UMA LOUCURA (Cap. 9)







ATENÇÃO: CONTEÚDO ALTAMENTE ERÓTICO

Samanta Hot:

Ele mal sabia que eu existia. Passava reto por mim onde trabalhávamos e nunca percebeu que eu estava ali, ansiosa e na expectativa de um olhar. Podia ser de desdém, que fosse. Mas a indiferença dele me matava.

Seu nome era Leonardo. Leonardo, o belo. Tudo nele exalava beleza e sexualidade. Meus melhores sonhos eróticos o tinham como personagem principal. Adorava aqueles músculos que saltavam sob sua camisa. Aquela bundinha gostosa me deixava louca. Leonardo, ou simplesmente Leo, era meu chefe. E eu, a moça da limpeza. Aquela do uniforme sem graça, solto no corpo e do cabelo preso debaixo do lencinho. Ele não sabia quem eu era. Mas iria descobrir isso rapidamente.
Pois bem. Debaixo do meu uniforme sem tesão se esconde uma louca por sexo. Leo, o belo, não pode ver, mas meu corpo deixa muitos homens babando. Eles adoram pegar meus seios grandes e meter na minha bunda rechonchuda. Minha bucetinha é única no mercado. Não tem outro igual.  Eu juro. Tenho certeza. Depois que ele Leo experimentar meu sabor, nunca mais vai querer outro rabo.

Minha grande chance não tardou muito a vir. Foi um dia pela manhã. Ele passou pelo saguão da empresa enquanto eu passava um paninho no chão. Nem me olhou. Segui-o com o canto do olho, minha buceta esquentou. Jurei para mim mesma que se eu não fosse comida e bem comida por ele naquele mesmo dia faria uma loucura.

Talvez o diabo tenha escutado minha prece. Meia hora depois recebi uma ordem: limpar a mesa do presidente. Parece que ele tinha derrubado alguma coisa por cima e estava furioso.

Não pensei duas vezes. Peguei meu paninho e entrei no elevador. Quando cheguei ao sétimo andar meus cabelos já estavam soltos, serpenteando pelas costas. A secretária me olhou estranhamente, mas fez sinal para que eu entrasse. Foi o que eu fiz. Não me dei ao trabalho de trancar a porta. Ele estava em pé, próximo à cortina, falando ao celular. Mal me olhou e fez um sinal para a mesa. Arrogante.

Adorei.

Leonardo ficou de costas para mim. Descalcei meus tênis e lentamente fui tirando o uniforme, deixando-o jogado no chão. Fiquei nua. O ar frio do ar condicionado não foi o bastante para diminuir meu calor. Peguei minha calcinha vermelha e me aproximei da mesa dele. Meu chefe ainda permanecia de costas. Mal sabia ele o que estava perdendo.

Havia café espalhado por sobre a mesa. Com minha calcinha cheirosa, bem devagar comecei a limpar a sujeira, inclinada para trás, arrebitando a bunda. Deixei de olhar para ele. Era a vez de Leonardo olhar para mim.

De repente a conversa cessou. O silêncio tomou conta do gabinete. Arrebitei mais a bunda e abri as pernas. Continuei a limpar, concentrada. Esperei ansiosamente que ele falasse alguma coisa. Nada. Será que ele não estava curtindo minhas poses?

De repente senti uma dor terrível. Quantos centímetros deveria ter aquele pau? O caralho do Leo foi rasgando meu cu de alto a baixo, sem cuspe. Juro, não esperava aquilo. Achei que teria um pouco de romance, um beijinho que fosse. De onde eu imaginei tudo isso?

Fiquei jogada por cima da mesa, de bunda pra cima, completamente arreganhada. Se era bom? Foi ótimo, no início. Mas eu mal podia me mexer. Já tinha perdido as contas de quantos paus me arrombaram o cu e Leo, com certeza, era o mais bem dotado de todos. E acho que minha bunda o enlouqueceu.

− Mexe esse rabo, vadia.

Um tapa fortíssimo vibrou na minha bunda. Foi o primeiro da série. Sufoquei um grito, quando na verdade queria berrar. Meu cabelo foi puxado e fui cavalgada sem dó nem piedade. Apanhei e meus gritos eram sufocados com meu rosto enfiado na sujeira que ele tinha feito na mesa. Lambi o resto do café enquanto era currada. Imaginei em que estado sairia dali.

Tentei fazer o que ele mandava. Mexi minha bunda da melhor maneira que podia, mas aquele pau enorme me atravessava e quase me imobilizava. A dor era maior que o prazer. Ele socava e socava meu cu com a maior facilidade. Não parava nunca. Aquilo já não estava ficando nada bom.

− Para – implorei, balbuciando de dor ­– Não aguento mais.

Foi pior. Leonardo me segurou pelo quadril e deu duas estocadas finais. Duas terríveis. E me soltou.

Foi um alívio sentir aquele caralho sair de dentro do meu cu. Não consegui me levantar imediatamente. Somente abri os olhos, cansada e dolorida. Então levei o maior choque.

Leonardo estava sentado em uma poltrona, afastado de mim. Vestido, com cara de debochado. Ao mesmo tempo senti uma presença atrás de mim. Alguém que naquele momento enfiava três dedos dentro do meu maltratado rabo. Quem havia me comido, então?

Virei imediatamente para trás. Que nojo. O gordo e barrigudo gerente de vendas havia sido o autor de tudo. Agora ele ria. Os dois riam. O desgraçado não tirava o dedo do meu cu. Tentei me soltar. O pau dele realmente era enorme. Um tripé. Antes que ele resolvesse meter tudo de novo dentro de mim, virei o resto do café que estava em uma garrafa térmica por sobre o cacete dele.

Foi um pandemônio. O caralho do cara deve ter ardido muito tamanho o berro que ele deu. Leonardo deu um pulo para ajudar o outro e eu saltei para longe para me vestir. A secretária entrou naquele instante e berrou mais alto ao ver a cena. A moça da limpeza nua, o gerente com o pau de fora e o presidente da empresa tentando contornar a situação. Me vesti correndo, deixei a calcinha no chão da sala da presidência. Meu rabo doía tanto que só em pensar vesti-la o sofrimento aumentava.

Nem pedi demissão. Simplesmente não voltei mais lá. Fiquei sem sentar por vários dias, passando pomadinha, torcendo para que meu cu voltasse ao normal. Depois de uma semana, tudo se normalizou. E eu voltei com força total.

Espere, Leonardo. Eu que vou currar você.”

Postei aquele conto na mesma hora, tensa e excitada. Precisava de um banho gelado para tirar o tesão que me consumia quase insuportavelmente. Mas não podia. Alguma das visitas da minha mãe poderia me enxergar e eu, sinceramente, não desejava ser vista por ninguém.

Eu precisava me aliviar. Saí da mesinha do notebook e me deitei na cama. Liguei o ventilador bem no meio das minhas pernas. Foi pior. O ventinho me deixou mais excitada ainda.      
   

E se me masturbasse?

terça-feira, 1 de agosto de 2017

MEU CHEFE É UMA LOUCURA (Cap, 8)



Cheguei em casa à noite completamente transformada. Fui direto para o espelho me analisar. Sim, eu precisava urgentemente de uma recauchutada geral. Diminuir alguns centímetros na barriga era fundamental. Minha dieta seguia razoavelmente bem. Talvez houvesse emagrecido alguma coisa. Mas para conquistar Leonardo, meu chefe, e a quem eu nunca havia visto até então, era preciso muito mais. Certamente ele gostava de ficar com beldades. Eu estava longe de ser uma.

Por enquanto.

Meus objetivos agora voavam mais alto.

Não precisa emagrecer mais. Você está bem assim.

Ignorei o comentário mentiroso da minha mãe. Perguntei:

− O que acha de eu tingir meu cabelo de loiro?
− Acho que você ficará parecendo uma puta.

Ignorei de novo aquele comentário mal educado e grosso. Porém, estava decidida. No sábado pintaria meu cabelo de loiro. Loiro Marilyn Monroe. Minha cabeleireira oficial não se importaria que eu pagasse no final do mês. Um corte moderno, cabelos mais claros, magra. Leonardo – ou Dr. Leonardo enquanto ele fosse meu chefe – iria se encantar por mim.
*
− Tem certeza de que é isto que você quer?

Dona Carmem segurava meus cabelos analisando cada fio. Sim, eu estava decidida.

− Claro. Não aguento mais olhar para a minha cara.
− A razão de querer mudar o visual é algum homem?

Prontamente respondi:

− Não.
− Pois bem ­− disse ela finalmente pegando a tesoura e pedindo para a auxiliar misturar a tinta com a qual iria me transformar para sempre em uma diva. – Você sabe que para manter cabelos loiros é preciso muitos cuidados. E muita grana.
− Vai em frente, dona Carmem. Quero sair daqui outra mulher.
− Você pediu.

Fiquei 3 horas no salão. Em alguns momentos cochilei na cadeira tamanho o tédio. Sonhei com Dr. Leonardo. Foi um sonho erótico, minha calcinha estava molhada quando senti um cutucão no meu ombro. Achei que fosse ele, mas quando abri os olhos me deparei com uma figura loira me encarando pelo espelho. Quase gritei quando percebi que aquela era eu.

− Que tal?

Que tal? Nem eu sabia. Não conseguia dizer se estava bonita ou feia. Estranha aos meus olhos, por assim dizer. Dona Carmem fez um milagre. Meu cabelo sem graça ficou repicado, moderninho. Ganhei uma franja, ela caía meio de lado na minha testa. E a cor…

Ultra loira. Não havia um fio de cabelo escuro na minha cabeça. Exótica era a palavra que melhor me definia. Quando eu emagrecesse, ficaria igual a Madonna. Tentei prestar atenção no que Dona Carmem dizia:

− Você precisará retocar os cabelos de mês em mês e hidratar semanalmente. Faça tudo direitinho e não haverá problema.

Balancei a cabeça concordando com tudo, mas não conseguindo assimilar coisa nenhuma. Saí do salão meio zonza, um pouco envergonhada. Na rua meus vizinhos me olhavam com uma cara de terrível espanto. Não sabia se estava agradando alguém. Desconfiei que não. Nem eu própria sabia ainda o que pensava sobre meu novo look.

Entrei em casa em silêncio. Minha mãe estava na cozinha, preparando seus doces, cantarolando em uma bela manhã de sábado. Fui direto para o banheiro para me dar outra analisada. Meu Deus, eu estava completamente diferente.

­­− Ai, meu Jesus!

Minha mãe deu um berro quando me viu. Não reconheceu a figura loura, de costas, e que tentava ansiosamente se encontrar. Aquele grito ensurdecedor me fez gritar junto. Por uns 5 segundos ficamos nos encarando, aparvalhadas. Foi o tempo que precisou para que minha mãe se desse conta que eu era eu.

− O que você fez, minha filha?
− Está muito horrível?

Ela não respondeu imediatamente. Olhou-me, fez caretas, pegou o cabelo para ter certeza de que aquilo era verdade. Por fim respondeu:

− Horrível não. Só está esquisito.
− Esquisito pode ser pior que horrível.
− Para quê tão loiro?
− Por que eu queria mudar.
− Parabéns, você conseguiu. Ainda bem que seu pai não está aqui para testemunhar esta sua loucura.

Meu pai sempre fora muito rígido. Andar de minissaia ou vestidos curtinhos eu só podia fazer quando ele estava viajando. As poucas vezes que consegui arrumar um namorado foi escondido dele. Se ele me visse daquele jeito me expulsaria de casa na mesma hora.

Por via das dúvidas não saí mais de casa naquele dia. Fiquei trancada no quarto para não ter que escutar os resmungos da minha mãe a respeito do meu novo visual. Para piorar o quadro, à tarde ela recebeu visitas. Menti que estava com dor de cabeça e me tranquei no quarto para ninguém me ver.


Foi quando Samanta Hot encarnou em mim.