quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

UM CADÁVER NO MEU JARDIM (Cap. 3)

Os pais e a irmã, Amanda, chegaram um pouco antes das oito horas da noite. Cris e André encontravam-se tranquilamente sentados no sofá assistindo a um filme, dividindo uma panela de pipoca.

− E então? Tudo bem por aqui? – perguntou Marília colocando a bolsa sobre a mesa.
− Tudo ótimo – responderam ambos com o olhar fixo na televisão.
− Onde está Tereza?

Tinha que ser ela. Amanda, a irmã mais velha. Coroada a rainha de fazer perguntas inoportunas desde que se conhecia por gente.

− Saiu mais cedo – disse André com a boca cheia de pipoca e sendo observado discretamente pelo outro gêmeo.
− Como assim foi embora?

Marília se plantou na frente dos filhos com as mãos na cintura. E arrematou:

− O combinado era que ela ficasse aqui até nós chegarmos.

Cris não conseguiu responder nada. André, sempre o mais despachado, disparou:

− Ela recebeu um telefonema um pouco antes do almoço e saiu correndo.

Um telefonema do além, disse Cris para si mesmo e quase se engasgou com a pipoca.

Marília olhou para o marido e disse:

− Você escutou esta, Carlos? A Terê recebeu uma ligação e deixou os guris sem almoço.

Carlos a recém tinha se atirado em uma poltrona, esticando as pernas.

− Muito estranho. Quem iria ligar para ela? Que eu saiba, Terê não tem parente nenhum.
− Tem, sim – atalhou Amanda pegando um pouco da pipoca dos irmãos. – Aquele irmão bêbado que volta e meia aparece do nada para pedir dinheiro emprestado a perder de vista.
− Então foi ele – deduziu Marília contrariada. – E vocês comeram o quê?

Na verdade, Cris e André haviam se esquecido de almoçar devido aos acontecimentos. Lá pelas quatro horas da tarde sentiram fome e comeram ambos um sanduíche ralo. André respondeu:

− Um sanduíche. Ou dois.
− Por esta eu não esperava. Terê nunca nos deixou na mão. Algo aconteceu.

Amanda falou:

− Bem, alguém terá que ir para cozinha preparar alguma coisa para a gente comer. Pelo visto a Terê não deixou nem o jantar pronto.
− Eu terei uma boa conversa com ela – Marília não escondia sua contrariedade.

Cris quase se engasgou de novo. André manteve os olhos fixos na TV e a boca cheia de pipoca.

− Cadê meu vaso?

O grito de Marília foi tão agudo que o restante da família se assustou. Cris olhou para André que olhou para Cris. Então o primeiro respondeu contrariado:

− O Poncho derrubou. E quebrou.
− O quê? O cachorro entrou aqui?

Era terminantemente proibido que o cachorro entrasse na casa.

− Er… foi tudo muito rápido, mãe. De repente ele estava aqui dentro e… derrubou o troço.
− Muito bem! O meu vaso de porcelana chinesa se resume a um troço!
− Marília, por favor – se meteu Carlos desejando um pouco de paz. – Aquele vaso era uma das coisas mais feias que eu já tinha visto na vida. O Poncho merece um osso extra. Falando em osso, meu amor, estou morrendo de fome. Que tal você ir para a cozinha fazer uma coisinha para a gente comer?

Amanda se aproximou da mãe e pegou-lhe o braço.

− Vamos, mãe. Eu ajudo você. Deve ter algum macarrão instantâneo mofando dentro do armário.

As duas desapareceram na cozinha para alívio dos três homens. Carlos murmurou:

− Estranho a Tereza desaparecer assim, né? Logo ela, tão sensata.
− Ô… − fez André.

A paz durou apenas cinco minutos. De repente Amanda veio da cozinha e perguntou em alto e bom som:

− Vocês queimaram alguma coisa na churrasqueira?

Sim, eles haviam queimado. A bolsa e o celular de Terê haviam sido destruídos hora depois de a mulher ter sido enterrada no jardim. Cris encontrara os pertences dela sobre o balcão da cozinha e o irmão tivera a brilhante ideia de incinerar tudo na churrasqueira. Bem, ele que respondesse agora. E foi o que o gêmeo fez, surpreendendo a Cris por sua frieza:

− Precisei queimar uns trabalhos antigos da faculdade.
− Não era mais fácil rasgar tudo? – perguntou Amanda, cética.
− Não.

Cris sequer olhou para os dois irmãos que trocavam aquele diálogo surreal.

− Está incomodando você? – André fez a pergunta enchendo a boca com muita pipoca.
− De jeito nenhum.


Amanda desapareceu na cozinha e Cris cutucou o irmão. Percebeu que André deixou escapar o ar preso devagarinho. Eles precisavam manter os olhos abertos. 

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